Nem reconstruir, nem reinventar, o sindicalismo precisa voltar a pulsar

Brasília-DF, sexta-feira, 31 de julho de 2026


Brasília, sexta-feira, 31 de julho de 2026 - 12:58

Nem reconstruir, nem reinventar, o sindicalismo precisa voltar a pulsar


Por: Marcos Verlaine*

O debate entre reconstrução, reinvenção e resistência revela que o maior desafio do movimento sindical talvez seja outro: revitalizar sua capacidade de representar, mobilizar e transformar o mundo do trabalho sem abandonar sua missão histórica.

Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Centrais sindicais reuniram trabalhadores na 3ª Marcha da Classe Trabalhadora, em abril, na Esplanada dos Ministérios.

Há debates que produzem vencedores. Outros produzem sínteses. Felizmente, a recente reflexão em torno do futuro do sindicalismo brasileiro parece caminhar na segunda direção.

O artigo do professor Railton Nascimento Souza, “Que sindicalismo o Brasil precisa (re)construir?”1, parte da constatação de que a ofensiva neoliberal desestruturou instituições, direitos e formas tradicionais de organização dos trabalhadores. Em seguida, meu texto — “Para além da reconstrução: que sindicalismo o Brasil precisa reinventar?”2 — sustentou que reconstruir, embora necessário, talvez não bastasse diante das profundas transformações tecnológicas, produtivas e sociais das últimas décadas.

A jornalista Carolina Maria Ruy acrescentou uma terceira perspectiva em “Nem reconstruir, nem reinventar: o sindicalismo deve resistir e cumprir sua missão histórica”3. O argumento dela é um alerta oportuno: reinventar não pode significar abandonar a identidade histórica dos sindicatos nem relativizar sua função essencial de organizar os trabalhadores para enfrentar a exploração do trabalho.

Lidos em conjunto, os 3 textos revelam menos divergências do que aparentam. Na realidade, iluminam diferentes dimensões do mesmo problema.


A falsa disputa entre
tradição e inovação

Parte importante do movimento sindical parece aprisionada numa falsa escolha.

De um lado, há quem considere suficiente reconstruir o que existia antes da Reforma Trabalhista de 2017, como se fosse possível restaurar um mundo do trabalho que simplesmente deixou de existir.

De outro, surgem vozes que defendem reinvenção tão profunda que, em alguns casos, quase dissolvem a própria razão de existir das organizações sindicais. Nenhum desses extremos parece responder aos desafios contemporâneos.

Não há retorno possível ao passado. Mas tampouco faz sentido romper com patrimônio histórico construído ao longo de mais de um século de lutas sociais. O sindicalismo não precisa escolher entre memória e futuro. Precisa conectar ambos.


A missão permanece;
o contexto mudou

A essência dos sindicatos continua rigorosamente atual. Organizar trabalhadores. Equilibrar relações desiguais entre capital e trabalho. Negociar direitos. Produzir solidariedade coletiva. Fortalecer a democracia. Nada disso perdeu validade.

O que mudou foi o ambiente onde essa missão precisa ser exercida.

O trabalhador industrial clássico já não ocupa sozinho o centro do mercado de trabalho. Crescem os trabalhadores de plataformas digitais, os terceirizados, os intermitentes, os autônomos economicamente dependentes, os profissionais altamente qualificados, os trabalhadores informais e milhões de pessoas submetidas a formas híbridas de contratação.

A fragmentação tornou-se talvez o maior aliado do capital contemporâneo. E exatamente por isso a representação coletiva torna-se ainda mais necessária.


Revitalizar é diferente
de reinventar

Talvez a palavra que sintetize melhor esse desafio não seja reconstrução. Nem reinvenção. Muito menos mera resistência. Talvez seja revitalização.

Revitalizar significa devolver vitalidade a algo cuja essência continua válida. Não implica negar sua história, mas permitir que essa continue produzindo futuro.

Uma árvore centenária não permanece viva porque substitui suas raízes. Permanece porque continuamente renova folhas, galhos e frutos.

Com os sindicatos ocorre algo semelhante. Sua identidade histórica não constitui obstáculo à modernização. Ao contrário.

É justamente essa que lhes confere legitimidade para enfrentar novas formas de exploração.


O desafio não é tecnológico.
É político

Há quem atribua as dificuldades do sindicalismo atual às redes digitais, à inteligência artificial ou às novas formas de trabalho. Esses fatores importam. Mas talvez o problema seja mais profundo.

Durante décadas consolidou-se uma cultura individualista que apresentou direitos como privilégios, negociação coletiva como obstáculo ao crescimento econômico e sindicatos como instituições dispensáveis.

O resultado foi paradoxal. Os trabalhadores perderam poder de negociação exatamente quando o mercado de trabalho se tornou mais instável.

Quanto mais individualizada ficou a relação entre capital e trabalho, maior se tornou a assimetria entre ambos.

Não por acaso, onde sindicatos permanecem fortes, salários, proteção social e produtividade tendem a caminhar juntos.


Revitalizar significa
voltar a organizar esperança

A revitalização sindical exige inovação tecnológica, comunicação digital eficiente, presença permanente nos locais de trabalho, diálogo com a juventude, atuação junto aos trabalhadores por aplicativos, qualificação de dirigentes, transparência e novas formas de financiamento.

Mas exige algo ainda mais importante. Recuperar sua capacidade de produzir pertencimento coletivo.

Nenhuma plataforma digital substituirá aquilo que sempre constituiu a maior força do sindicalismo: transformar problemas individuais em causas coletivas.

Essa continua sendo sua vantagem estratégica diante de mercado que prospera justamente fragmentando trabalhadores.


O futuro nasce da síntese

Os 3 artigos contribuem para o debate que o movimento sindical precisa fazer. Railton lembra que há estruturas a reconstruir. Meu texto sustenta que há práticas a renovar. Carolina Maria Ruy recorda que existe uma missão histórica que não pode ser abandonada.

Talvez nenhum dos 3, isoladamente, esgote a resposta. Mas juntos apontam, talvez, para síntese mais promissora. O sindicalismo brasileiro não será salvo pela nostalgia. Nem por modismos organizacionais.

Seu futuro dependerá da capacidade de revitalizar sua energia histórica, preservar sua identidade e atualizar seus instrumentos para representar um mundo do trabalho radicalmente diferente daquele que lhe deu origem.

Porque as instituições não permanecem relevantes apenas por existirem. Permanecem porque conseguem renovar sua capacidade de transformar a realidade.

É exatamente essa vitalidade — mais do que a reconstrução, a reinvenção ou a simples resistência — que definirá o lugar do sindicalismo no Brasil das próximas décadas.

 

(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

________________

1 Que sindicalismo o Brasil precisa (re)construir?, - Portal Vermelho, 9 de julho de 2026 -  https://vermelho.org.br/coluna/que-sindicalismo-o-brasil-precisa-reconstruir/ 


2 Para além da reconstrução: que sindicalismo o Brasil precisa reinventar? - Agência DIAP, 13 de julho de 2026 - https://www.diap.org.br/index.php/noticias/agencia-diap/93039-para-alem-da-reconstrucao-que-sindicalismo-o-brasil-precisa-reinventar


3 Nem reconstruir, nem reinventar: o sindicalismo deve resistir e cumprir sua missão histórica - Hora do Povo, 21.07.26 - https://horadopovo.com.br/nem-reconstruir-nem-reinventar-o-sindicalismo-deve-resistir-e-cumprir-sua-missao-historica/

 








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