Brasília, terça-feira, 5 de maio de 2026 - 10:41
2026: a encruzilhada democrática
Por: Marcos Verlaine*
Entre projetos antagônicos de Estado, a eleição expõe fragilidades institucionais, pressiona o sindicalismo e testa os limites do pacto social brasileiro. Este é um alerta ao movimento sindical.
São 2 projetos, e um país tensionado. É disso que se trata as eleições de 2026, que se desenham menos como alternância de poder e mais como teste de estresse da própria arquitetura democrática brasileira.
De um lado, a candidatura associada ao campo progressista, liderado por Lula (PT), sustenta agenda ancorada em políticas públicas, valorização do trabalho e reativação do papel indutor do Estado para inclusão e desenvolvimento, num Brasil marcado por exclusão, desequilíbrio e injustiça.
De outro, a consolidação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como herdeiro político do bolsonarismo e preposto do pai, que está preso e inelegível, reorganiza o projeto neoliberal-conservador, que combina enxugamento estatal, endurecimento penal, centralidade do mercado em detrimento do povo e dos trabalhadores e submissão a interesses estrangeiros.
A polarização, longe de ser apenas eleitoral, reflete visões distintas sobre o papel da democracia, das instituições e dos direitos sociais. O risco, portanto, não está apenas em quem vence, mas no grau de erosão institucional que o processo pode produzir.
Empate técnico, desequilíbrio estrutural
As pesquisas mais recentes apontam cenário de empate técnico no segundo turno, com variações mínimas entre ambos os lados em disputa. Esse equilíbrio numérico, no entanto, convive com dado estrutural relevante: a tendência de vantagem da oposição no Senado.
Essa assimetria pode reproduzir — ou aprofundar — problema recorrente no presidencialismo brasileiro recente: governos eleitos com dificuldade de governar.
Nesse contexto, a disputa de 2026 não se limita ao Executivo. A composição do Congresso será determinante para definir se o País seguirá por rota de pactuação institucional ou de bloqueio político permanente.
Trabalho, direitos e o fio da navalha
O debate sobre o mundo do trabalho emerge como um dos eixos mais sensíveis dessa eleição, que aponta de um lado para o futuro e de outro para o retrocesso ou salto para trás. Diante disso, o movimento sindical precisará “terçar armas”.
Propostas como a redução da jornada, o fortalecimento da negociação coletiva e a regulação de novas formas de contratação sinalizam tentativa de atualização do modelo trabalhista frente à economia digital.
Por outro lado, a ênfase em flexibilização, desburocratização e ampliação de formatos contratuais mais livres reacende o temor de precarização. O ponto crítico não está na dicotomia simplista entre “direitos” e “mercado”, mas na ausência de novo equilíbrio capaz de proteger trabalhadores sem sufocar a dinâmica econômica.
A experiência recente mostra que mudanças abruptas, sem mediação institucional robusta, tendem a gerar ganhos assimétricos e instabilidade social.
Sindicalismo: entre a reinvenção e a irrelevância
Diante desse cenário, o movimento sindical enfrenta talvez seu maior teste ou desafio desde a redemocratização. Com estrutura capilarizada — mais de 17 mil entidades —, sua capacidade de mobilização ainda é relevante, mas sua influência política tem oscilado.
A eleição de 2026 coloca o sindicalismo diante de escolha estratégica: atuar como protagonista na disputa de projetos ou manter postura reativa, correndo o risco de ver reduzido seu espaço de interlocução.
Mais do que apoiar candidaturas, trata-se de redefinir seu papel num mercado de trabalho em transformação, marcado por informalidade, plataformas digitais e fragmentação dos trabalhadores como classe social.
Risco maior: a corrosão silenciosa
O verdadeiro divisor de águas de 2026 pode não estar no resultado imediato das urnas, mas na capacidade — ou incapacidade — de preservar regras do jogo democrático em meio à disputa.
A história recente brasileira mostra que a erosão institucional raramente ocorre por ruptura explícita e abrupta; essa avança por meio de pressões graduais, deslegitimação de instituições e tensionamento constante dos limites legais.
Assim, mais do que escolher entre programas distintos, o País se vê diante de questão mais profunda: qual o grau de compromisso das forças políticas em disputa com a estabilidade democrática, o Estado de Direito e a mediação de conflitos por vias institucionais.
Se 2026 será “a eleição de nossas vidas”, como muitos afirmam, e será de fato, isso não se deve apenas ao contraste entre projetos, mas ao fato de que o resultado — qualquer que seja — exigirá maturidade política para evitar que a disputa democrática se converta em impasse permanente.
Em 2026, o País e os eleitores não estarão sob o “Dilema de Sofia”1 depois da experiência trágica de 2019-2022 e do contraste de 2023-2026.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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1 O “Dilema de Sofia” — ou A Escolha de Sofia — refere-se ao romance de William Styron (1979) e filme (1982), em que Sofia, polonesa em Auschwitz, é forçada por nazistas a escolher qual dos 2 filhos dela viveria e qual seria morto. Se recusasse, ambos morreriam. Ela fez a opção e viveu assombrada pela culpa permanente.
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