Brasília, quarta-feira, 19 de agosto de 2026 - 9:50
Dois palanques, dois legados e uma eleição entre memória e herança
Por: Marcos Verlaine*
Lula dá a largada de 2026 carregando 5 décadas de trajetória sindical, partidária e institucional. Flávio Bolsonaro tenta transformar o sobrenome e o espólio político do pai em passaporte para o Planalto. Pesquisa mostra disputa apertada, mas os currículos revelam diferenças profundas de origem, experiência e densidade política.
A campanha presidencial de 2026 começou oficialmente no último domingo (16) com imagem que sintetiza, talvez melhor que qualquer discurso, a natureza da disputa que se desenha para outubro.
De um lado, Lula (PT) voltou à Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, “onde tudo começou”, berço das grandes greves metalúrgicas do ABC e lugar decisivo da formação dele como líder sindical e político.
De outro, Flávio Bolsonaro (PL) escolheu Copacabana, no Rio de Janeiro, território simbólico do bolsonarismo, para apresentar-se como herdeiro político do pai e candidato capaz de levar a direita (extrema) ao Palácio do Planalto.
Não se trata apenas de diferença geográfica ou de endereço. Trata-se, pois, de diferença de trajetória, de origem e de capital político.
A escolha dos 2 palanques funcionou como espécie de resumo biográfico. Lula procurou recuperar a imagem do dirigente operário que ajudou a reorganizar o movimento sindical brasileiro no final dos anos 1970 e início dos anos 1980 e que, em 1980, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores.
Flávio, por sua vez, apresentou-se como o candidato de continuidade do bolsonarismo, com a segurança pública, o chamado “conservadorismo nos costumes”, o confronto com o STF e a defesa do legado (trágico) de Jair Bolsonaro ocupando lugar central no discurso que fez e faz.
É, portanto, eleição que começa com 2 candidatos que carregam sobrenomes politicamente muito conhecidos, mas que chegam à disputa presidencial com capitais políticos de natureza bastante distinta.
Vila Euclides: onde nasceu a liderança
A história política de Lula não começou no Parlamento nem em família tradicional da política. Nasceu no chão da fábrica e amadureceu nas greves do ABC paulista. A Vila Euclides, onde voltou agora para iniciar a campanha, foi palco das mobilizações operárias que desafiaram a ditadura militar (1964-1985) e ajudaram a recolocar os trabalhadores no centro da cena política nacional.
Foi daquele movimento que surgiu geração de dirigentes sindicais que não se limitava à negociação salarial. Havia ali a percepção de que a democratização exigia também organização política e participação institucional.
Em 1980, Lula participou da fundação do PT1, experiência que reuniu sindicalistas, militantes da resistência à ditadura, intelectuais, movimentos populares, setores progressistas da Igreja Católica, artistas e lideranças sociais. Depois de 3 anos, participou da criação da CUT (1983). A trajetória posterior o levou à Câmara dos Deputados, à Assembleia Nacional Constituinte (1987), que escreveu e aprovou a Constituição de 1988 e, depois de 3 derrotas presidenciais, ao Palácio do Planalto (2002-2003).
Hoje, aos 80 anos, Lula disputa o quarto mandato presidencial não consecutivo. O ato de domingo explorou justamente esse percurso. O discurso recuperou as greves, a vida operária e realizações dos governos protagonizados por ele, ao mesmo tempo em que apresentou novas bandeiras, como segurança pública, indústria, minerais estratégicos, educação e políticas orientadas às mulheres.
A biografia, entretanto, não deve ser confundida, por si só, com certificado de virtude.
Lula chega à eleição carregando também as marcas das crises políticas que atravessaram os governos dele e do desgaste provocado pelos escândalos de corrupção que atingiram dirigentes e partidos da base dele.
A chamada Operação Lava Jato produziu condenações contra o então ex-presidente, posteriormente anuladas pelo STF. A Corte decidiu que a 13ª Vara Federal de Curitiba era incompetente para julgar aqueles processos e determinou a remessa dos casos para a Justiça Federal do Distrito Federal.
É importante registrar a distinção: as condenações foram anuladas e Lula recuperou os direitos políticos. Isso não apaga, contudo, o enorme impacto político que aqueles episódios tiveram sobre a imagem dele e sobre a própria democracia brasileira.
O balanço de Lula, portanto, é necessariamente contraditório: há legado político e social de grande dimensão, mas também erros, contradições e crises que precisam ser submetidos ao julgamento público. Esse escrutínio se repetirá nas urnas em outubro.
Copacabana: política como patrimônio familiar
Flávio Bolsonaro chega ao mesmo ponto de partida por caminho radicalmente diferente.
A carreira política dele começou no Rio de Janeiro, onde exerceu 4 mandatos consecutivos de deputado estadual na Alerj. Depois, alcançou o Senado e tornou-se uma das principais figuras do bolsonarismo. Não construiu, porém, legenda própria nem movimento político independente do clã. A principal credencial eleitoral dele continua sendo o sobrenome Bolsonaro e a associação direta com a força política construída pelo pai.
Isso ficou evidente no lançamento da candidatura. Em Copacabana, Flávio concentrou a mensagem na segurança pública, atacou Lula e o STF e reivindicou a continuidade do projeto político do pai. A campanha utiliza inclusive a marca e o imaginário eleitoral associados à vitória de Jair Bolsonaro em 2018.
Há, aí, a questão central para a eleição: Flávio disputa a Presidência como protagonista ou como sucessor? A resposta parece pender para a segunda hipótese.
A candidatura surgiu como alternativa à impossibilidade eleitoral de Jair Bolsonaro e como tentativa de manter unido o eleitorado bolsonarista. O próprio comportamento da campanha revela essa relação e dependência.
Flávio precisa defender o legado do pai, mobilizar a base bolsonarista, preservar o discurso de confronto com o STF e, simultaneamente, convencer parcelas do eleitorado que não votaram em Bolsonaro de que ele possui autonomia, preparo e capacidade administrativa para governar o País. Trata-se de equação de difícil convencimento para quem não é bolsonarista e/ou antipetista, que é, em grande medida, o anticomunismo do século 21.
Questão da densidade política
A comparação entre os 2 candidatos não significa dizer que um seja imune à críticas e o outro seja desprovido de qualquer realização parlamentar.
Flávio apresentou projetos e iniciativas na Alerj e no Senado, especialmente nas áreas de segurança pública, defesa de policiais, tributação e interesses federativos do Rio de Janeiro. Levantamento da Folha (11 de maio) sobre a passagem pela Alerj mostra que ele também atuou em temas como saúde, mobilidade, direitos das pessoas com deficiência, transparência e defesa do consumidor.
Mas há diferenças de escala que não podem ser ignoradas.
Lula construiu trajetória política nacional antes de chegar à Presidência. Flávio construiu trajetória principalmente dentro de núcleo familiar que se tornou uma das mais poderosas marcas eleitorais do País.
Essa diferença aparece também quando se examina a natureza do discurso de ambos.
Lula fala de Estado, indústria, soberania, educação, trabalho, segurança e políticas sociais. Um debate o País e questões estruturantes do Estado brasileiro. Flávio concentra a campanha em segurança, combate às facções, endurecimento penal, conservadorismo e oposição ao PT e ao STF. Isto é, ele repete o discurso caótico e mal-ajambrado do pai.
As próprias propostas de governo evidenciam essa distância: enquanto Lula aposta no Estado como indutor do desenvolvimento e no fortalecimento de políticas públicas — neodesenvolvimentismo —, e Flávio defende redução do Estado, cortes de ministérios, privatizações e mudanças institucionais, além de política de segurança mais punitiva. Neoliberalismo misturado com reacionarismo.
Não se trata apenas de 2 candidaturas. São 2 concepções distintas sobre o papel do Estado e sobre o próprio significado da Presidência da República.
Os legados também têm problemas
É preciso evitar, entretanto, a tentação de transformar a eleição em disputa entre um candidato absolutamente virtuoso e outro absolutamente desqualificado.
Lula tem legado expressivo, mas não está acima da crítica. Ninguém na vida está. Os governos dele foram atravessados por escândalos, alianças controversas, fisiologismo parlamentar e contradições entre o discurso de transformação social e as práticas de governabilidade. A terceira passagem pelo Planalto também expôs dificuldades fiscais, problemas de comunicação e limitações na construção de nova geração de lideranças capazes de sucedê-lo.
Flávio, por sua vez, tem currículo parlamentar real, mas a trajetória foi marcada por controvérsias que ultrapassaram a disputa política ordinária.
A investigação sobre o esquema conhecido como “rachadinha” no gabinete dele na Alerj, a atuação de Fabrício Queiroz e as relações políticas que vieram à tona durante as investigações produziram um dos episódios mais delicados da carreira dele. A apuração foi encerrada sem condenação, mas deixou perguntas e controvérsias que continuam fazendo parte do escrutínio público sobre a trajetória dele que segue.
Por isso, a análise séria precisa separar acusação, investigação, arquivamento, condenação e fato comprovado. O leitor e eleitor tem direito à informação; os candidatos, ao devido processo e à presunção de inocência.
Pesquisa mostra eleição muito mais apertada
Se os currículos são profundamente diferentes, a fotografia eleitoral mostra disputa muito menos confortável para Lula do que a trajetória dele poderia sugerir.
A pesquisa BTG/Nexus divulgada em 17 de agosto mostra Lula com 41% no primeiro turno, contra 36% de Flávio Bolsonaro. Ambos aparecem, portanto, separados por 5 pontos. No segundo turno, a distância cai para 3 pontos: 47% a 44%, resultado considerado empate técnico diante da margem de erro de 2 pontos percentuais.
O dado mais importante talvez não seja quem está numericamente na frente, mas a proximidade entre ambos.
O presidente dispõe da máquina política, da visibilidade do cargo, de coalizão partidária e de trajetória reconhecida nacionalmente. Flávio dispõe de base ideológica altamente mobilizada, da força do sobrenome e da capacidade de organização do bolsonarismo.
Isso é combinação que pode produzir eleição extremamente competitiva.
Palanques diferentes e eleitorado dividido
O simbolismo de ambos os lançamentos também revela a geografia política da disputa.
São Bernardo representa a memória do sindicalismo, do movimento operário e da ascensão de uma esquerda que chegou ao poder depois de décadas de organização2. Copacabana representa a nova direita brasileira, sua mobilização digital, o chamado conservadorismo nos costumes e a capacidade de transformar o antipetismo em identidade política.
Mas nenhum dos 2 palanques, isoladamente, elege presidente.
Lula precisará ampliar a presença dele entre mulheres, jovens, evangélicos, setores da chamada “classe média” e eleitores que não têm identidade petista. Flávio terá de romper a bolha bolsonarista e convencer eleitores que rejeitam tanto Lula quanto o reacionarismo associado ao pai e a ele mesmo, que de moderado, nada tem.
A disputa pelo centro, portanto, continua aberta. E é justamente aí que a eleição poderá ser decidida. O eleitor oscilante3 é quem vai decidir quem vai se sentar na principal cadeira do Brasil e ocupar por 4 anos o principal endereço político do País.
Sobrenome contra a história
A questão essencial de 2026 não é saber quem possui a biografia mais bonita. É descobrir se a experiência acumulada de Lula será suficiente para superar o desgaste de 3 mandatos presidenciais e se Flávio conseguirá provar que é mais do que o herdeiro de família política caótica e com profundas contradições, que saltam aos olhos.
Lula chega com história que precede ao ingresso dele no poder. Flávio chega com história política fortemente condicionada pelo poder do sobrenome e ainda cheio de obscuridades na vida parlamentar.
Um construiu identidade política que depois produziu uma trajetória política. O outro pertence à família política que produziu a identidade eleitoral. Essa diferença pode parecer apenas biográfica, mas tem consequências concretas para a Presidência.
Governar o Brasil exige mais que mobilizar base eleitoral. Exige capacidade de negociação, conhecimento institucional, experiência administrativa, formação e gestão de equipe, compreensão das desigualdades regionais e sociais e disposição para respeitar os limites constitucionais.
É nesse terreno que ambos os contendores precisarão ser avaliados.
Conclusão: a urna julgará mais que os palanques
A campanha começou com símbolos poderosos: a Vila Euclides de Lula e a Copacabana de Flávio (Jair) Bolsonaro. Um recorre à memória de trajetória construída ao longo de décadas; o outro mobiliza a força de herança política familiar caótica.
As pesquisas mostram que essa diferença histórica não se traduz automaticamente em vantagem eleitoral. Lula lidera o primeiro turno, mas, segundo as pesquisas, o segundo turno está tecnicamente aberto.
A eleição de outubro será, assim, disputa entre 2 forças políticas que representam momentos muito distintos da história recente brasileira.
De um lado, político octogenário que ajudou a fundar um partido, participou da reorganização sindical, atravessou a redemocratização, chegou à Constituinte e governou o País em 3 mandatos. De outro, o senador que construiu a carreira no interior do clã Bolsonaro e agora tenta converter o capital eleitoral do pai em candidatura presidencial competitiva.
Lula terá de provar que o legado dele continua maior que os desgastes que sofreu. Flávio terá de demonstrar que a candidatura dele é maior que o sobrenome.
No fim, será o eleitor — e não a memória ou os retratos simbólicos dos palanques — quem decidirá qual dessas 2 histórias merece escrever o próximo capítulo do Brasil.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
________________
1 O PT foi fundado oficialmente em 10 de fevereiro de 1980, em ato público no auditório do Colégio Sion, em São Paulo. A legenda nasceu da articulação entre o novo sindicalismo do ABC paulista, oposição de esquerda à ditadura militar, intelectuais, artistas e católicos ligados à Teologia da Libertação.
Sindicalistas e lideranças operárias/camponesas: Lula, líder metalúrgico do ABC e principal condutor da criação do partido, tornando-se o primeiro presidente; Jacó Bittar, líder do Sindicato dos Petroleiros de Paulínia e Campinas, coordenador da comissão provisória pró-PT; Olívio Dutra, dirigente dos bancários do RS; Manoel da Conceição, importante líder camponês e dos trabalhadores rurais do Nordeste (MA); Henos Amorina, liderança do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco; e José Cicote, dirigente sindical dos metalúrgicos de Santo André.
Intelectuais: Sérgio Buarque de Holanda, renomado historiador, escritor e um dos primeiros signatários do manifesto de fundação; Antonio Candido, crítico literário, sociólogo e professor universitário de forte atuação socialista; Mário Pedrosa, histórico crítico de arte, escritor e militante socialista independente; Paulo Freire, educador e filósofo mundialmente conhecido (representado no ato por Moacir Gadotti); e Marilena Chauí, filósofa e professora da USP.
Artistas e ativistas culturais: Lélia Abramo, atriz de teatro, TV e cinema, além de presidente licenciada do Sindicato dos Artistas de São Paulo; e Sérgio Mamberti, ator e ativista cultural presente nos primórdios da articulação artística com o partido.
Religiosos e setores católicos (Teologia da Libertação). Articulação contou com forte apoio de bases católicas progressistas, por meio das CEB (Comunidades Eclesiais de Base), com atuação de padres, bispos (como Dom Paulo Evaristo Arns nos bastidores de apoio à liberdade sindical) e frades dominicanos que apoiavam a organização operária de base.
Militantes políticos e exilados: Apolônio de Carvalho, veterano da Guerra Civil Espanhola, da Resistência Francesa e guerrilheiro da esquerda brasileira, foi quem assinou a ficha de filiação número 1 do PT; Luiz Dulci, líder do movimento de professores em Minas Gerais e articulador político nacional nos anos de fundação; e José Dirceu, que desempenhou papel central na fundação e na organização inicial do PT, atuando como um dos principais militantes e articuladores políticos do partido a partir de 1980. A participação dele se destaca pela trajetória como liderança estudantil, exilado político e organizador de tendências internas. Liderança nos anos 60, antes da fundação do PT, ganhou projeção nacional como presidente da UEE-SP (União Estadual dos Estudantes de São Paulo) em 1968. Iniciou a militância política no Partidão, como era conhecido o velho PCB (Partido Comunista Brasileiro).
2 Os governos de Lula e Dilma foram do ponto de vista político, simultaneamente, de esquerda e de coalizão. Na ciência política, o rótulo ou clivagem ideológica (esquerda) define o programa de inclusão social e o perfil do partido principal (PT), enquanto o chamado “presidencialismo de coalizão” descreve o método indispensável de dividir cargos e negociar com o Congresso para obter maioria. No campo econômico, pode ser considerado de caráter liberal (clássico).
3 O eleitor oscilante (ou swing voter / eleitor-pêndulo) é aquele que não tem lado político fixo. Ele muda de voto com facilidade, não segue partidos e decide com base no momento da economia, na segurança ou no noticiário, e não por paixão ideológica. Principais características: pragmatismo, vota em quem parece ter mais chances reais ou melhor proposta prática, e não por idolatria a candidato; e volatilidade, altera a escolha de acordo com o desempenho do governo atual ou com os fatos da campanha. Peso eleitoral: representa fatia grande (cerca de 1/3) do eleitorado brasileiro e costuma definir quem vence eleições apertadas.
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