Brasília, quarta-feira, 20 de maio de 2026 - 19:3
2026 e a batalha pelo sentimento profundo do Brasil
Por: Marcos Verlaine*
Entre inflação dos alimentos, soberania nacional, precarização do trabalho e descrença institucional, o debate público que antecede as eleições presidenciais já revela as forças que podem definir os rumos políticos do País.
O País real já entrou em campanha. As eleições de 2026 ainda parecem distantes no calendário, mas o debate público que as antecede está em pleno funcionamento e andamento.
E talvez este seja o primeiro elemento decisivo do atual cenário político: a disputa eleitoral deixou de ocorrer apenas no período formal das campanhas e passou a ser travada permanentemente no cotidiano social, econômico e digital do País.
Os dados levantados pela ABC Dados Pesquisa e Planejamento, em conjunto com a Amangolin Comunicação e Estratégia, revelam algo central para compreender o ambiente político brasileiro: a sociedade não está organizada apenas por identidades ideológicas tradicionais, mas sobretudo por percepções concretas da vida material, da segurança, do trabalho, da renda e da confiança nas instituições.
É nesse terreno, tudo índia, que a eleição de 2026 começa a ser moldada.
Força dos temas populares e nacionais
Entre os pontos positivos identificados no debate público, segundo a pesquisa, chama atenção o crescimento de pautas que conectam proteção social, soberania econômica e defesa do trabalho.
A defesa do fim da escala 6x1, por exemplo, saiu das redes digitais, entrou no Congresso Nacional e alcançou raro ponto de convergência entre a juventude trabalhadora, sindicatos e parte significativa da opinião pública.
O tema toca diretamente a exaustão social produzida por décadas de precarização laboral, sobretudo entre jovens trabalhadores no comércio, serviços e aplicativos.
Mais do que pauta sindical clássica, trata-se de debate sobre qualidade de vida, saúde mental e reorganização do tempo social. E isso explica a força dessa pauta.
Na mesma direção, a proposta de ampliação da isenção do Imposto de Renda possui elevado potencial político porque dialoga com a renda disponível das camadas médias e populares. Em cenário de inflação persistente dos alimentos e alto endividamento familiar, qualquer medida associada ao alívio tributário tende a produzir forte repercussão simbólica e prática.
Outro eixo importante é a defesa da soberania nacional. O tema, que durante anos parecia restrito a setores específicos do campo progressista, voltou ao centro da arena política impulsionado pelas tensões geopolíticas internacionais, pela disputa global por recursos naturais estratégicos e pela percepção crescente da dependência econômica do Brasil.
Nesse contexto, a crítica à desnacionalização de setores estratégicos, ao enfraquecimento industrial e à perda de capacidade estatal tende a ganhar relevância eleitoral.
O mesmo ocorre com o combate ao crime organizado. A segurança pública permanece como uma das maiores preocupações nacionais, e qualquer força política que consiga combinar firmeza institucional, inteligência policial e respostas sociais concretas poderá ocupar espaço importante no imaginário popular.
Riscos políticos que esquerda e governo ainda não resolveram
Se há pautas favoráveis ao campo governista e progressista, há também fragilidades evidentes. E algumas dessas são estruturalmente perigosas. A principal continua sendo o custo de vida.
Mesmo diante de indicadores macroeconômicos relativamente positivos, grande parte da população continua avaliando a vida a partir da experiência cotidiana do supermercado, do gás, do aluguel e dos juros. A economia real da população frequentemente pesa mais do que índices técnicos celebrados por governos e analistas.
O preço dos alimentos, especialmente, possui enorme capacidade de deterioração política. Trata-se de elemento emocionalmente poderoso porque afeta diretamente a rotina doméstica. Quando o alimento encarece, a percepção de melhora econômica perde credibilidade social.
Outro problema identificado é a defesa incondicional das instituições sem mediação crítica. Esse talvez seja um dos pontos mais sofisticados — e perigosos — do atual cenário político.
Parte da juventude passou a enxergar setores da direita como representantes de postura “antissistema”, ainda que muitos desses grupos tenham governado o País recentemente ou mantenham forte relação com estruturas tradicionais de poder. Isso ocorre porque o discurso institucionalista, quando desconectado das frustrações sociais concretas, pode parecer distante, burocrático ou elitizado.
A direita compreendeu rapidamente a força política da linguagem da indignação. Já os setores progressistas frequentemente permanecem presos à comunicação excessivamente defensiva, técnica ou institucional.
Há ainda o peso do endividamento das famílias e da manutenção de juros elevados. Mesmo quando a inflação desacelera, o crédito caro limita consumo, investimento e sensação de prosperidade. Politicamente, isso reduz a capacidade de os governos transformarem a estabilidade macroeconômica em entusiasmo popular.
Por fim, cresce a sensação de insegurança. E aqui existe dado politicamente relevante: sensação e estatística não são necessariamente a mesma coisa. A percepção social da violência frequentemente possui impacto eleitoral maior que os próprios indicadores oficiais.
Temas ainda indefinidos e potencialmente explosivos
Há também pautas que ainda estão em disputa simbólica e política, e que exigem, portanto, maior e mais observação.
A possível proibição das bets é uma dessas. O avanço desenfreado das apostas on-line produziu impactos sociais relevantes, especialmente entre jovens e trabalhadores de baixa renda. Porém, qualquer tentativa de restrição enfrenta dilema: como combater o vício e a destruição financeira sem parecer intervenção moralista ou autoritária?
Outro ponto delicado envolve os trabalhadores de aplicativos.
Intervenções regulatórias pouco debatidas com a própria categoria podem gerar reação contrária justamente entre setores que deveriam ser beneficiados. Trata-se de campo complexo porque mistura precarização extrema, desejo de autonomia e ausência histórica de proteção social.
A disputa política sobre os aplicativos dependerá menos da retórica e mais da capacidade de construir diálogo concreto com quem vive dessa atividade.
A crítica à privatização da BR Distribuidora revela limite recorrente de parte do debate progressista: denunciar privatizações sem apresentar claramente alternativas estruturais. Quando não se explicita o projeto — seja reestatização, novo modelo híbrido ou regulação estratégica — o discurso tende a perder potência mobilizadora.
2026 será decidida pela interpretação do cotidiano
O quadro desenhado pelas análises da ABC Dados e da Amangolin sugere que 2026 poderá ser menos eleição ideológica clássica e mais disputa sobre interpretações da experiência cotidiana brasileira.
Quem conseguir traduzir economicamente as angústias sociais, oferecer sensação concreta de proteção e construir narrativa convincente sobre o futuro terá vantagem.
O eleitor brasileiro parece cada vez menos disposto a aderir automaticamente a discursos abstratos. Quer respostas palpáveis sobre trabalho, renda, segurança, custo de vida e pertencimento nacional.
A eleição, portanto, já começou. E essa não será vencida apenas nos programas eleitorais ou nos debates televisivos. Será vencida na capacidade de compreender — e disputar — o sentimento profundo de um País atravessado simultaneamente por frustração, fadiga social e desejo de reconstrução.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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