Brasília, segunda-feira, 10 de agosto de 2026 - 12:47
IA: entre o avanço tecnológico e o atraso produtivo
Por: Marcos Verlaine*
Mais que a tecnologia, são a estrutura produtiva e as escolhas políticas que definem seus efeitos sobre emprego e desenvolvimento.
A tecnologia não determina, por si só, o destino das economias. Essa é a premissa que orienta este debate público. Assim, o presente artigo nasce do questionamento em relação a reflexão anterior: “A IA ainda não destrói empregos. Apenas começou pelos jovens”1. “Não é a tecnologia que cria ou aprofunda o desemprego. É o capitalismo.” Vamos examinar isto.
Desde a Revolução Industrial, cada grande salto tecnológico foi acompanhado por previsões apocalípticas sobre o fim do trabalho. O mesmo ocorre agora com a IA (inteligência artificial), a automação avançada, a robotização e as novas plataformas digitais.
De um lado, proliferam discursos que anunciam era de desemprego estrutural e exclusão permanente. De outro, difunde-se visão quase messiânica segundo a qual a IA, sozinha, resolverá os problemas de produtividade e crescimento econômico.
Nenhuma dessas narrativas resiste à análise mais rigorosa.
A história econômica demonstra que a tecnologia nunca foi neutra. Tampouco produziu efeitos homogêneos entre países. Essa amplia potencialidades, mas também aprofunda fragilidades já existentes. Seus impactos dependem menos dos algoritmos do que da estrutura econômica sobre a qual esses operam.
A pergunta central, portanto, não é se a IA destruirá empregos ou criará riqueza. A verdadeira questão é: que tipo de economia está preparada para transformar inovação em desenvolvimento?
Problema brasileiro não é a IA;
é a desindustrialização
O debate nacional frequentemente atribui à inteligência artificial a responsabilidade pela precarização do trabalho. Trata-se de diagnóstico superficial.
O Brasil começou a perder capacidade industrial muito antes da revolução da IA. Nas últimas décadas, assistiu à redução da participação da indústria de transformação no PIB2, ao enfraquecimento da política industrial, à reprimarização das exportações e ao crescente déficit tecnológico3.
Nesse contexto, a chegada da inteligência artificial encontra economia fragilizada.
Quando um país perde sua capacidade de produzir tecnologia, passa inevitavelmente a consumi-la. Deixa de disputar as etapas mais sofisticadas das cadeias globais de valor4 e torna-se dependente das plataformas, dos softwares, dos semicondutores e das infraestruturas digitais desenvolvidas no exterior.
Assim, a IA não cria a vulnerabilidade; essa apenas a torna mais evidente.
Em economias desindustrializadas, a automação frequentemente substitui empregos sem que novas atividades de maior valor agregado sejam capazes de absorver essa mão de obra. Crescem o trabalho por aplicativos, a informalidade digital, a terceirização extrema e formas sofisticadas de precarização.
Não é a tecnologia que produz esse resultado. É a ausência de projeto nacional de desenvolvimento.
Economias desenvolvidas
também enfrentam contradições
Seria igualmente equivocado imaginar que os países tecnologicamente avançados vivem realidade isenta de conflitos.
Estados Unidos, Alemanha, Japão, Coreia do Sul e outros líderes tecnológicos mundiais utilizam IA para ampliar produtividade, acelerar pesquisas científicas, fortalecer a indústria e aumentar competitividade internacional.
Mas isso não significa que todos os trabalhadores sejam beneficiados.
Mesmo nessas economias, milhões de profissionais enfrentam processos contínuos de substituição de tarefas rotineiras, exigindo permanente requalificação. O chamado reskilling5 deixou de ser política complementar para tornar-se condição permanente da vida profissional.
Ao mesmo tempo, a riqueza gerada pela economia digital concentra-se de maneira inédita.
Poucas empresas controlam infraestrutura computacional, grandes modelos de linguagem, plataformas digitais, redes digitais, sistemas operacionais, armazenamento em nuvem e enormes volumes de dados. O resultado é a concentração crescente de renda, poder econômico e influência política.
Portanto, mesmo onde a tecnologia impulsiona crescimento, essa também amplia desigualdades se não houver regulação pública eficiente. Ou seja, a ação regulatória do Estado.
Falso dilema entre
empregos e inovação
Frequentemente, o debate público apresenta escolha simplista: ou se protege o emprego existente ou se incentiva a inovação tecnológica. Essa oposição é artificial.
Toda grande transformação tecnológica elimina determinadas ocupações enquanto cria outras. O problema surge quando o ritmo da destruição supera a capacidade de criação de novos empregos qualificados.
Foi assim na mecanização agrícola. Foi assim na eletrificação. Foi assim na informatização. E será assim com a inteligência artificial.
O desafio das políticas públicas consiste justamente em reduzir esse intervalo por meio de educação continuada, qualificação profissional, proteção social, fortalecimento da indústria nacional e estímulo à pesquisa científica.
Tecnologia sem política industrial produz dependência. Tecnologia com estratégia nacional produz desenvolvimento.
Estado continua
sendo protagonista
Os principais avanços tecnológicos do século 21 não nasceram exclusivamente do mercado. Ao contrário.
Internet, GPS, semicondutores, biotecnologia, computação de alto desempenho e, mais recentemente, a própria inteligência artificial receberam investimentos maciços do setor público em praticamente todos os países desenvolvidos. Não existe capitalismo desenvolvido sem forte intervenção estatal.
Não existe Vale do Silício6 sem universidades públicas de excelência. Não existe indústria de semicondutores sem forte financiamento estatal. Não existe liderança em IA sem políticas nacionais de ciência, tecnologia e inovação.
Os países hoje considerados referências tecnológicas protegeram seus mercados estratégicos, financiaram pesquisa durante décadas e utilizaram o Estado como indutor da transformação produtiva.
Esperar que economias periféricas alcancem o mesmo estágio apenas pela ação espontânea do mercado é desconhecer a própria história do desenvolvimento econômico capitalista. Isto é, não existe capitalismo desenvolvido sem Estado7.
Nem tecnofobia nem tecnofilia
O debate sobre inteligência artificial precisa abandonar 2 extremos igualmente improdutivos. O primeiro é a tecnofobia8, que enxerga a IA apenas como ameaça ao emprego e à sociedade. O segundo é o tecnofetichismo9, que acredita que a simples adoção de novas tecnologias produzirá crescimento econômico automático.
Ambas as posições ignoram que a tecnologia é instrumento, que potencializa capacidades já existentes.
Economias industrializadas utilizam a IA para produzir mais conhecimento, desenvolver novos produtos, aumentar exportações e elevar produtividade.
Economias dependentes tendem apenas a importar essas soluções, pagando royalties, exportando dados e aprofundando sua inserção subordinada na economia mundial.
A diferença não está na inteligência artificial. Está na inteligência das políticas públicas.
O futuro será definido
por escolhas políticas
A inteligência artificial representa uma das maiores transformações econômicas desde a eletrificação. Seus impactos serão profundos sobre a produção, os serviços, a educação, a ciência e o mercado de trabalho.
Mas seu resultado não está previamente determinado. Essa pode ampliar desigualdades ou democratizar oportunidades.
Pode substituir empregos precários por ocupações altamente qualificadas ou aprofundar a informalidade. Pode transformar países em protagonistas tecnológicos ou consolidá-los como meros consumidores de inovação produzida no exterior.
Tudo dependerá das decisões políticas e do Estado tomadas agora.
Para o Brasil, a discussão não deveria limitar-se ao medo de que a IA elimine empregos. A questão estratégica é outra: o País pretende produzir inteligência artificial ou apenas consumir inteligência produzida pelos outros?
Essa resposta definirá não apenas o futuro do trabalho, mas também o lugar que o Brasil ocupará na economia mundial nas próximas décadas.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
___________________
1 https://vermelho.org.br/coluna/a-ia-ainda-nao-destroi-empregos-apenas-comecou-pelos-jovens/
2 A participação da indústria de transformação no PIB brasileiro despencou de cerca de 36% em 1985 para faixa entre 10,8% e 11% nos anos recentes. Esse processo de desindustrialização precoce decorre do elevado custo de produção nacional, da forte concorrência de manufaturados estrangeiros, do peso das taxas de juros elevadas e da especialização da economia em commodities.
3 A reprimarização das exportações — retorno à forte dependência da venda de produtos básicos e commodities (soja, minério de ferro e petróleo bruto) em detrimento de manufaturados — caminha lado a lado com o crescente déficit tecnológico, que reflete a disparidade entre a importação de bens de alto valor agregado e a baixa capacidade nacional de inovação.
4 As CGV (Cadeias Globais de Valor) referem-se à fragmentação do processo de produção de bens ou serviços em várias etapas realizadas em diferentes países e empresas ao redor do mundo.
5 Reskilling (ou requalificação) é o processo de aprender novas habilidades para assumir função diferente da atual, permitindo a transição para nova área ou profissão. Esse movimento é impulsionado por mudanças tecnológicas, como a IA e a automação de processos, que tornam algumas tarefas obsoletas enquanto criam novas demandas no mercado de trabalho.
6 Vale do Silício (Silicon Valley) é uma região na Califórnia (EUA), que funciona como o principal polo de inovação e tecnologia do mundo. O nome vem do uso do silício na fabricação de chips de computador e componentes eletrônicos.
7 O capitalismo órfão do Estado e a fantasia que desaba diante da realidade - https://vermelho.org.br/coluna/o-capitalismo-orfao-do-estado-e-a-fantasia-que-desaba-diante-da-realidade/
8 Tecnofobia é o medo, aversão ou ansiedade persistente em relação ao uso de tecnologias modernas, computadores ou dispositivos complexos. Suas principais características envolvem sintomas físicos de nervosismo, resistência cultural à inovação e receio de substituição humana por máquinas.
9 O tecnofetichismo (ou fetichismo tecnológico) é a tendência social e ideológica de supervalorizar a tecnologia, tratando-a como força mágica, neutra ou autônoma capaz de resolver problemas sociais por si mesma, enquanto oculta as relações humanas, o trabalho precarizado e os interesses de poder por trás de sua criação.
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