Brasília, quinta-feira, 9 de abril de 2026 - 11:39
O Brasil que alimenta corpos evita formar consciências
Por: Marcos Verlaine*
Assistencialismo alivia a fome imediata, mas sem educação crítica perpetua desigualdades. Governos falharam ao não transformar políticas sociais em instrumentos de emancipação.
Para além das urgências — distribuir comida, produtos de higiene e itens básicos é necessário — é imprescindível dar um passo adiante e ninguém está discutindo isso.
Em um País marcado por desigualdades profundas, negar a urgência da sobrevivência seria desumano. Mas limitar o trabalho social a isso é, no mínimo, insuficiente.
E, no limite, funcional à manutenção da própria desigualdade que se pretende combater.
O Brasil segue preso à lógica de assistência que alivia o sofrimento imediato, mas não enfrenta suas causas estruturais. Alimenta-se o corpo, mas se negligencia a formação da consciência. E sem consciência, não há transformação. Apenas repetição.
Engrenagem da desigualdade
O País continua sendo um dos mais desiguais do mundo. Não por acaso, mas por projeto histórico. A concentração de renda, a exclusão social e as múltiplas formas de opressão — do racismo ao machismo — não são desvios: são pilares de estrutura que se reproduz há séculos.
Por exemplo, no quesito “concentração de renda”, os 10% vs. os 50%, ou os 10% mais ricos no Brasil concentram cerca de 59% da renda total do País, enquanto os 50% mais pobres vivem com apenas 10% da renda nacional. Em 2024, o rendimento médio do 1% mais rico ainda era 30,5 vezes superior ao dos 50% mais pobres.
Nesse contexto, o assistencialismo, quando isolado, atua como anestésico social. Reduz tensões, mas não altera a engrenagem. Evita o colapso, mas também impede a ruptura.
É por isso que a pergunta central não é apenas “quem tem fome?”, mas “por que a fome existe em um País que produz tanto?”.
Papel da consciência crítica
A resposta passa, inevitavelmente, pela educação. Não qualquer educação, mas educação crítica, capaz de revelar as estruturas invisíveis que sustentam as desigualdades.
Inspirado em Paulo Freire, esse caminho pressupõe mais do que alfabetizar: trata-se de ensinar a ler o mundo. Compreender que a pobreza não é fruto do acaso, mas de escolhas políticas, heranças históricas e modelos econômicos excludentes.
Distribuir livros, nesse sentido, não é gesto simbólico. É estratégia política. É oferecer ferramentas para que indivíduos deixem de ser apenas beneficiários de políticas públicas e se tornem sujeitos de transformação.
Sem isso, a assistência corre o risco de perpetuar a passividade. Com isso, abre-se a possibilidade de emancipação.
Limite dos governos progressistas
É nesse ponto que emerge crítica incômoda, mas necessária: os governos de Lula e Dilma, embora tenham promovido inclusão social via consumo e ampliado o acesso ao básico, falharam em avançar de forma consistente na formação de consciência crítica popular.
Houve redução da pobreza, ampliação de direitos e acesso a bens. Mas não se estruturou, na mesma intensidade, projeto de educação política e social capaz de sustentar essas conquistas no longo prazo.
O resultado é visível: avanços materiais coexistindo com fragilidade política. Inclusão sem consciência é inclusão vulnerável, isto é, facilmente revertida por crises, desinformação ou manipulação.
Foi o que o País viveu entre o impedimento da ex-presidente Dilma (2016), a prisão de Lula (2018), a presidência de Temer (2016), a eleição de Bolsonaro (2018) e a ascensão do fascismo.
Entre a fome e a alienação
O dilema brasileiro não é escolher entre dar comida ou dar livros. Essa é uma falsa dicotomia. O desafio é fazer os 2, e simultaneamente.
Sem comida, não há condição de aprender. Mas sem conhecimento, não há condição de mudar. O prato vazio impede a leitura; mas a ausência de leitura perpetua o prato vazio.
A verdadeira política social precisa unir assistência e emancipação. Precisa enfrentar a emergência sem abandonar a estrutura. Precisa aliviar a dor, mas também explicar suas causas.
Emancipação como horizonte
Trabalho social transformador não pode se limitar à distribuição de bens e serviços. Deve distribuir também consciência, questionamento e capacidade crítica. Deve provocar a pergunta incômoda: por que poucos têm tanto e tantos têm tão pouco?
Essa não é proposta utópica. É, ao contrário, profundamente realista. Porque ataca o problema na raiz.
Enquanto o Brasil insistir em tratar desigualdade apenas com paliativos, seguirá administrando a pobreza em vez de superá-la. E isso interessa a muita gente.
Romper esse ciclo exige mais do que políticas públicas: exige coragem política. Coragem para formar cidadãos que não apenas recebam, mas questionem. Que não apenas sobrevivam, mas compreendam. E transformem!
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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