PEC 221/19 entra na reta decisiva no Senado

Brasília-DF, segunda-feira, 24 de agosto de 2026


Brasília, segunda-feira, 24 de agosto de 2026 - 22:47

PEC 221/19 entra na reta decisiva no Senado

Omar Aziz apresenta parecer em 2 de setembro e quer levar fim da escala 6x1 ao plenário. Mobilização nacional no dia 30 pressionará senadores

Foto: Letycia Bond/ Agência Brasil

A PEC 221/19, que reduz a jornada de trabalho para 40 horas semanais e estabelece 2 dias de descanso, entrou definitivamente na reta decisiva da tramitação no Senado. O relator na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), senador Omar Aziz (PSD-AM), anunciou, nesta segunda-feira (24), que pretende apresentar parecer em 2 de setembro, durante a semana de esforço concentrado do Congresso, e trabalhar para que a proposta seja levada ao plenário.

A declaração ocorre no momento em que o Senado finalmente destravou a matéria, aprovada em 2 turnos pela Câmara em maio. A PEC estava sem despacho no Senado desde o fim daquele mês e só chegou à CCJ em 21 de agosto, quando Aziz foi designado relator. O registro oficial do Senado confirma que a proposta está atualmente sob a relatoria dele.

O calendário ganha peso adicional porque o esforço concentrado do Senado está previsto para 31 de agosto a 4 de setembro, último período de atividade legislativa mais intensa antes das eleições. A intenção do relator é aproveitar a janela para fazer a proposta avançar.


“Espero apresentar na quarta-feira”

Em entrevista nesta segunda-feira ao programa Manhã de Notícia, da TV Tiradentes, de Manaus, Aziz confirmou que recebeu a matéria e que pretende concluir o relatório na próxima semana.

“Recebi e vou me debruçar em relação ao projeto [proposta]. Como se trata de uma PEC, tem que haver um acordo entre as 2 Casas. Eu espero apresentar esse relatório na quarta-feira que vem”, afirmou.

A declaração estabelece nova referência para a tramitação. O senador também já havia manifestado simpatia pelo mérito da proposta e defendido que a redução da jornada pode produzir ganhos de produtividade.

“Há questão mental das pessoas. Está comprovado que quanto menos horas de trabalho, mais você produz. O que as empresas da indústria querem é a qualidade do serviço e aumento de produção. Por isso, o fim da escala 6x1 é uma necessidade do Brasil. Vamos votar por isso ainda este ano”, disse Aziz em declaração anterior.

A disposição do relator é importante porque a principal batalha agora deixa de ser apenas pelo desbloqueio da matéria e passa a ser pela construção do acordo político necessário para fazê-la avançar rapidamente no Senado.


O que está em jogo

O texto aprovado pela Câmara estabelece jornada máxima de 40 horas semanais, distribuída em 5 dias de trabalho e 2 de descanso, sem redução salarial. A proposta prevê transição até a nova jornada, além de leis específicas para determinadas carreiras.

A aprovação na Câmara foi expressiva: 472 deputados votaram a favor e 22 contra no primeiro turno; no segundo, foram 461 votos favoráveis e 19 contrários. O texto que chegou ao Senado é substitutivo do deputado Leo Prates (Republicanos-BA), que reuniu a PEC 221/19, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), e a PEC 8/25, da deputada Erika Hilton (PSol-SP).

A mudança representa alteração importante no padrão constitucional de jornada. A atual regra de até 44 horas semanais e a possibilidade de organização em 6 dias de trabalho para 1 de descanso dão lugar a modelo de 5x2, com 2 dias de repouso semanal, preferencialmente no fim de semana.

Mais do que mudança na escala, a proposta mexe na relação entre tempo de trabalho e tempo de vida.


Mobilização chega às ruas

A tramitação no Senado será acompanhada de forte pressão social.

As frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo convocaram para 30 de agosto o Dia Nacional de Mobilização pelo Fim da Escala 6x1. A iniciativa pretende reunir centrais sindicais, movimentos populares e organizações da sociedade civil em atos em diferentes cidades, às vésperas da semana de esforço concentrado.

As centrais sindicais também aderiram à mobilização e convocaram plenária nacional para esta segunda-feira (24), com o objetivo de organizar as ações do dia 30 e ampliar a pressão sobre os senadores.

A estratégia é clara: transformar a mobilização social em pressão política direta sobre a CCJ e o plenário.

A expectativa das entidades é levar o tema para as ruas justamente no domingo que antecede a semana em que os senadores terão a oportunidade de decidir se a proposta avançará.


Lula reforça pressão

O presidente Lula (PT) também voltou a colocar o fim da escala 6x1 no centro do debate político. Em mensagem nas redes, defendeu a aprovação da proposta e afirmou:

“Os trabalhadores do nosso País não podem mais esperar. Chegou a hora de aprovarmos o fim da escala 6x1. Eu já estou pronto para assinar e garantir esse avanço histórico para o nosso povo.”

Em outra manifestação recente, Lula associou a redução da jornada ao direito de os trabalhadores terem mais tempo para a família, o descanso e a própria vida. A pauta passou a ocupar lugar destacado na agenda política do governo e do movimento sindical.

O governo, portanto, tem interesse em transformar a aprovação da PEC em uma das principais conquistas sociais do período anterior às eleições.


Disputa com o patronato

A proposta, porém, está longe de ser consensual. Setores empresariais e forças políticas de oposição sustentam que a redução constitucional da jornada pode elevar custos, afetar atividades que funcionam continuamente e reduzir a flexibilidade das relações de trabalho.

No campo oposicionista, Daniella Marques, coordenadora da área econômica da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), classificou recentemente o debate sobre a escala 6x1 como “populista e inócuo” e defendeu maior liberdade contratual entre empregados e empregadores.

O argumento patronal, portanto, deverá ganhar força na audiência pública e na negociação parlamentar.

Por outro lado, trabalhadores e entidades sindicais sustentam que a redução da jornada é compatível com ganhos de produtividade, melhoria da saúde, redução da exaustão e ampliação do tempo destinado à família, ao lazer e à qualificação profissional.

A própria tramitação na Câmara reuniu debates sobre produtividade, saúde e experiências de empresas que já adotaram jornadas menores.


Fator político

O destravamento da PEC não ocorreu por acaso. A proposta permaneceu parada no Senado desde que chegou da Câmara, até ser encaminhada à CCJ e entregue a Aziz na sexta-feira (21). A mudança abriu espaço para que o tema fosse incluído na agenda do esforço concentrado de setembro.

O movimento também se insere na retomada do diálogo político entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). A reaproximação criou condições para que aliados do governo assumissem a relatoria da PEC da jornada e de outra matéria prioritária, a PEC da Segurança (PEC 18/25).

Isso explica porque a próxima semana adquiriu importância extraordinária: há janela política, calendário legislativo e pressão social convergindo sobre a mesma pauta.


Desafio é o plenário

A apresentação do relatório é apenas o primeiro passo. Depois de passar pela CCJ, a PEC ainda precisará ser aprovada pelo plenário do Senado em 2 turnos, com pelo menos 49 votos favoráveis em cada votação.

O desafio será construir maioria em torno do texto sem abrir brechas para alterações que possam retardar a promulgação. Se os senadores modificarem o conteúdo aprovado pela Câmara, a matéria terá de retornar aos deputados. É justamente esse risco que torna a estratégia de Aziz particularmente relevante.

O relator terá de equilibrar 3 objetivos: preservar o núcleo da proposta, construir maioria na CCJ e criar condições para votação rápida no plenário.

Qualquer alteração substancial poderá reabrir a tramitação na Câmara e comprometer o calendário político.

Disputa sobre o Tempo de vida

O debate sobre a escala 6x1 ultrapassou os limites de discussão técnica sobre legislação trabalhista. A questão central passou a ser quanto tempo da vida de uma pessoa deve ser destinado ao trabalho e quanto deve permanecer para descanso, família, estudo, lazer e convivência social.

É por isso que a mobilização do dia 30 tem significado político. As organizações querem mostrar aos senadores que a proposta não é apenas pauta sindical, mas reivindicação com forte apelo social.

A estratégia das entidades é simples: mobilizar antes da votação para que cada senador saiba que a posição dele será acompanhada pelos trabalhadores.


Reta final

A semana de 31 de agosto a 4 de setembro será, assim, o primeiro grande teste da disposição do Senado de enfrentar uma das principais reivindicações trabalhistas dos últimos anos.

Omar Aziz pretende apresentar parecer em 2 de setembro e tentar levar a PEC ao plenário. Os movimentos sociais e sindicais prometem ocupar as ruas no domingo anterior. Lula mantém a pressão política. E setores empresariais e da oposição articulam resistência.

A PEC 221/19 chega ao Senado, portanto, não apenas como proposta de mudança na jornada. Chega como disputa política sobre o modelo de relações de trabalho que o País quer para os próximos anos.

Se a mobilização social conseguir transformar apoio popular em votos no Congresso, o fim da escala 6x1 poderá dar passo decisivo para se tornar realidade.

O calendário está posto. Agora, a disputa é pelos votos.

*Matéria atualizada às 19h30, com informações por meio da entrevista concedida pelo relator ao programa Manhã de Notícia, da TV Tiradentes, de Manaus.









Últimas notícias

Notícias relacionadas



REDES SOCIAIS
Facebook Instagram

Sindicato dos Auxiliares de Administração Escolar em Estabelecimentos Particulares de Ensino no Distrito Federal

SCS Quadra 1, Bloco K, Edifício Denasa, Sala 1304,
Brasília-DF, CEP 71398-900 Telefone (61) 3034-8685
recp.saepdf@gmail.com