Cury é a novidade que recicla o velho discurso
Na busca por alternativa entre Lula e Flávio Bolsonaro, Cury surge como rosto novo, mas oferece ideias velhas: Estado mínimo, meritocracia e respostas simplistas para problemas complexos.
Montagem/ Fotos: Maua Martins/TV Brasil; Romulo Serpa/Eduardo Tadeu/Unesc; e Ricardo Stuckert/PR
Há um dado político incontornável na eleição presidencial de 2026: parte expressiva do eleitorado está cansada da polarização entre Lula (PT) e o bolsonarismo, cujo representante é Flávio Bolsonaro (PT).
É nesse terreno de fadiga política que o presidenciável Augusto Cury (Avante) parece ter encontrado espaço para crescer eleitoralmente.
O escritor chegou ao terceiro lugar nas pesquisas, com índices próximos de 10%, alimentado sobretudo pela imagem de candidato de fora da política e pelo discurso de pacificação. Isso pode encantar nesse ambiente conflagrado da política brasileira.
A novidade, entretanto, parece estar mais no personagem do que nas ideias. Cury é neófito eleitoral, mas isso, por si só, não constitui defeito. A política precisa, eventualmente, de novos atores. O problema começa quando a inexperiência é acompanhada de compreensão simplificada sobre o funcionamento do Estado, da economia e da própria política.
Velho discurso com nova embalagem
Cury construiu carreira de enorme sucesso editorial falando sobre comportamento, emoções e relações humanas. É legítimo que leve essa experiência para o debate público. O problema é transformar fórmulas de autoajuda em respostas para problemas estruturais de uma sociedade complexa como a brasileira.
As manifestações dele sobre economia ajudam a revelar o conteúdo dessa “novidade”. Em sabatina, Cury defendeu Estado “mínimo”, fiscalmente responsável e enxuto, criticando a intervenção estatal considerada excessiva. Também fala em meritocracia, empreendedorismo e eficiência administrativa.
Nada disso é propriamente novo. Ao contrário: trata-se de conhecida agenda neoliberal-conservadora, apenas apresentada por personagem que ainda não carrega o desgaste dos chamados “políticos profissionais e tradicionais”.
Platitudes não governam um país
Cury apresenta algumas propostas que podem soar atraentes à primeira vista: reduzir o número de ministérios, aumentar a eficiência do funcionalismo, criar estruturas orientadas à inteligência artificial, dividir o BNDES e ampliar o financiamento às microempresas.
Mas, quando submetidas a perguntas mais específicas, algumas respostas permanecem genéricas. Foi o que ocorreu, por exemplo, quando questionado sobre os critérios para avaliar a eficiência do funcionalismo.
O mesmo vale para a promessa de combater a pobreza por meio do empreendedorismo e da inclusão produtiva. O plano de governo dele tem 200 páginas e reúne propostas em áreas diversas, mas a quantidade de páginas não substitui consistência, prioridade e capacidade de execução. E ainda análise concreta e realista dos complexos e seculares problemas brasileiros.
Governar o Brasil não é conduzir palestra motivacional. Não basta dizer que é preciso “gestão”, “eficiência”, “inovação”, “paz” e “empreendedorismo”.
Estas são palavras consensuais, mas insuficientes para responder como financiar políticas públicas, enfrentar desigualdades, negociar com o Congresso, administrar o Orçamento bilionário, conduzir a política econômica e lidar com interesses sociais conflitantes.
Política não é autoajuda
Há diferença fundamental entre estimular uma pessoa a mudar a própria vida e governar a sociedade. Na primeira situação, a motivação pode ser decisiva. Na segunda, é apenas parte do problema, cujo “buraco” é muito, mas muito mais embaixo. Para iniciar o debate.
O Brasil não precisa escolher entre a polarização permanente e o candidato que se apresenta como terapeuta da política. Precisa de alguém capaz de compreender que conflitos sociais não desaparecem porque se pede inteligência emocional aos contendores.
A política democrática é, por natureza, conflito, negociação, interesses, correlação de forças e construção de maiorias. Quem chega ao Planalto precisa saber conversar com Congresso, governadores, empresários, trabalhadores, movimentos sociais, Judiciário e sociedade civil.
Precisa conhecer as engrenagens do Estado e do poder antes de prometer consertá-los, reformá-los ou alterá-los parcial ou integralmente.
Rosto novo, receita antiga
A ascensão de Cury merece ser compreendida, portanto, menos como revolução política e mais como sintoma do momento eleitoral. Ele ocupa espaço real: o do eleitor que rejeita os polos – muito embora, a bem da verdade, Lula não seja o polo oposto de Flávio – e desconfia dos chamados políticos tradicionais e procura alternativa. É justo.
Mas rejeitar a polarização não significa necessariamente abraçar política nova. Cury pode ser rosto novo para ideias bastante antigas e conhecidas e que deram errado no Brasil.
E essa distinção é fundamental. A política não tem espaço para amadores, ingênuos e despreparados. Muito menos para quem confunde a simplicidade de palestra com a complexidade de governar um país.
É como diria o ex-presidente americano Barack Obama: “Na política e na vida, a ignorância não é uma virtude.”
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

